METAVERSE: PRÓXIMO PASSO PARA O FUTURO OU PARA O DESASTRE?
Recentemente, o Facebook (enquanto empresa) passou a ser designado de Meta, uma vez que estão a trabalhar para construir uma nova utopia tecnológica. Por este motivo, é provável que te tenhas cruzado inúmeras vezes com a palavra “metaverse”, mas sabes em que realmente consiste, as vantagens associadas e os receios inerentes à sua aplicação permanente?
De forma bastante simplificada, podemos descrever o metaverse como a versão seguinte da internet. Se esta é algo para onde olhamos, o primeiro permite-nos estar dentro dela, numa experiência totalmente imersiva, contrariamente à linearidade e duas dimensões a que estamos habituados.
Imagina todas as atividades que realizas na internet – como ver um filme ou até mesmo ler o presente artigo – poderem ser feitas de uma maneira que parece verdadeiramente real, com um avatar personalizado e num ambiente por ti definido.
Nos últimos anos tem sido possível constatar uma crescente migração para o mundo digital em atividades de todos os ramos, desde empresas que trocaram as suas reuniões presenciais por reuniões feitas através do Zoom, até ao simples facto de que existe uma clara preferência por jogos virtuais a jogos offline. Se este aspeto era facilmente identificável antes, então a situação pandémica que vivemos apenas permitiu confirmar e aumentar as tendências. Ora, se diversas organizações aboliram reuniões e até o trabalho presencial, não estariam dispostas e até mesmo ansiosas por dar o próximo passo e transferir estas atividades para um local onde fosse possível fazêlas com o aspeto realista à mistura? Onde fosse possível comunicar e sentir que todos estão na mesma sala, no conforto da casa de cada um?
Nesta utopia, chegar atrasado a uma reunião ou aula devido ao trânsito deixará de ser um problema pois não terás de sair de casa e, consequentemente, poderás desfrutar de mais umas horas de sono, bem como de mais uns euros na tua carteira, dado o dinheiro que eventualmente pouparás em viagens. Diretamente associado a este tópico, podemos referir uma vantagem ligada ao ambiente, uma vez que, podendo fazer a maioria das atividades dentro de casa, as viagens a fazer para os respetivos locais deixarão de se fazer e, consequentemente, minimizar-se-ão as emissões de dióxido de carbono.
No entanto, o metaverse não será apenas um meio facilitador das nossas vidas, como também abrirá horizontes e permitir-nos-á vivenciar fantasias nunca antes tidas como possíveis. Queres saltar de paraquedas, mas tens medo de alturas? Queres ver um concerto do teu artista preferido, mas Portugal não está na lista de países para a próxima tour? O metaverse dar-te-á a possibilidade de realizares essa atividade de uma maneira que parecerá suficientemente realista, num ambiente seguro confortável.
O avatar que anteriormente mencionei possibilitará que cada indivíduo se expresse da maneira que desejar, já que cada um tem a liberdade de definir o seu. Isto significa que finalmente poderás ter olhos azuis ou mais 10cm de altura, mas, mais que estas questões superficiais, o realismo associado ao metaverse permitirá que pessoas com deficiências motoras não se sintam restringidas pelo seu próprio corpo – ser-lhes-á possível andar, correr e mexer-se livremente.
Um dos aspetos do metaverse que em mim mais suscitou curiosidade foi a questão da informação. Ao “vivermos” neste novo universo, deixaríamos de ler a informação para passarmos a vê-la e até mesmo tocar-lhe. A meu ver, os processos de aprendizagem e pesquisa seriam muito mais céleres dada a possibilidade de interação direta com a mesma, levando a um aumento da produtividade, pois cada utilizador terá liberdade para decidir o ambiente em que estuda, pesquisa ou trabalha – no metaverse és tu quem decide, com base nas tuas preferências e conforto. Acrescido, também a forma como a informação é transmitida será mais rápida, pois em vez de escrever ou teclar, será possível fazê-lo exclusivamente através da voz, gestos e, num futuro não muito distante, através do pensamento.
É de salientar que o metaverse já existe e existirá quer o (antigo) Facebook esteja incluído no processo ou não. No entanto, esta versão avançada do metaverse, na qual será possível fazer absolutamente tudo sem a necessidade de sair de casa é a visão do futuro por parte da empresa Meta, que, apesar de ser a primeira a torná-lo oficial, tem trabalhado em parceria com outras empresas para o criar, como a Microsoft, que revelou o desenvolvimento do sistema Mesh para adaptar o Teams, com o objetivo de possibilitar um sentimento de “presença”.
Também a própria Meta divulgou alguns projetos que tem idealizados e nos quais está atualmente a trabalhar, como uma luva que permitirá dar o próximo passo e desenvolver o aspeto sensorial, ou uma loja denominada “Horizon Marketplace”, que possibilitará a compra e venda de artigos, atividades e até novos mundos criados pelos próprios utilizadores. Com a introdução da última talvez venhamos a assistir ao nascimento de uma nova economia, uma vez que provocará a adesão de muitas marcas do “mundo real”, mas, além de uma economia de bens digitais, será também um local repleto de novas oportunidades, como serviços e empregos.
Apesar de parecer promissor e as vantagens serem claras, também existem bastantes desvantagens associadas ao metaverse.
Atualmente, além de exigir o uso de aparelhos relativamente caros, nem estes têm a capacidade de resolver determinados problemas como uma conexão instável ou o facto de excluir totalmente pessoas com dificuldades visuais, que se encontrarão num ambiente dominado por imagens e não por palavras (que podem ser lidas por assistentes virtuais), como na internet.
Referi o facto do metaverse fornecer experiências virtuais com o nível máximo de realismo possível, mas não será isto também uma potencial ameaça? Se Zuckerberg concretizar o seu objetivo e criar uma versão que permita aos seus utilizadores sentirem que estão na presença de outras pessoas, será que vamos estar dispostos a sair de casa? A verdade é que quanto mais imersiva a experiência, mais viciante se tornará.
E no longo prazo, será possível distinguir o que é real do que não é? O metaverse permite que cada um veja apenas o que pretende ver, podendo levar a uma perda de contacto com a realidade - por exemplo: no teu mundo virtual terias a possibilidade de extinguir a guerra ou a situação pandémica em que vivemos, no entanto não deixariam de existir no mundo real. Esta desconexão fará com que menos pessoas tentem resolver esses e tantos outros problemas pois não lhes darão atenção, no entanto eles continuarão lá. Como a escritora Ayn Rand disse: “Podemos evitar a realidade, mas não podemos evitar as consequências de evitar a realidade”.
À semelhança, devemos questionar o que acontecerá connosco enquanto pessoas reais, pois, apesar de podermos fazer o que quisermos com o nosso avatar, o mesmo não se aplica offline. Continuaremos a ter de comer, beber água, fazer exercício e a relacionar-nos fisicamente, pois não somos o nosso avatar perfeito e a nossa vida não é aquela que queremos e temos virtualmente. Ter uma vida perfeita online fará com que odiemos a nossa vida real, pois essa nunca desaparecerá. Não será, então, o metaverse uma ponte direta para o aumento de doenças como ansiedade ou depressão?
Se atualmente é difícil moderar a internet contra potenciais ameaças, e sendo muitas destas escritas, no contexto do metaverse essa moderação seria quase impossível se não fosse extremamente invasiva. Para aceder à plataforma, teríamos de abdicar totalmente da nossa privacidade, não estamos a falar apenas de algumas pesquisas ou fotografias e sabendo a maneira como várias empresas (incluindo a Meta) lidam com os dados dos seus utilizadores, seria sensato dar-lhes tanto poder? Uma solução passaria por descentralizar ao máximo o poder, já que dados como estes não devem estar na posse de uma única empresa.
Existindo claros pontos positivos e negativos acerca do tópico, fica ao critério de cada um perceber qual a sua visão. Existem algumas obras que abordam o tema de uma perspetiva distópica como os livros Snow Crash e Ready Player One ou, caso prefiras uma abordagem visual, recomendo os episódios da série Black Mirror: US Callister e Striking Vipers. De modo a perceber um pouco do “outro lado da moeda”, Mark Zuckerberg já falou diversas vezes do tema, nomeadamente nesta entrevista.
A vida não é perfeita, mas será que devia ser? Seríamos verdadeiramente mais felizes se não experienciássemos pontos baixos na nossa vida? Na minha opinião a resposta para ambas as perguntas é ‘não’. Não considero que um mundo que gire exclusivamente em torno dos nossos gostos e visão nos permita experienciar a vida ao máximo. Nenhuma experiência vivenciada no metaverse, por mais realista que seja, será real. As experiências do mundo real não podem ser substituídas.
Carolina Almeida, colaboradora do Departamento Financeiro
Carolina Almeida