O COLAPSO DA CAMPANHA DEMOCRATA

Após algumas semanas dos resultados finais das eleições americanas, creio que já temos a distância suficiente para refletir sobre as prestações dos partidos de forma mais ponderada!

A meu ver, a análise correta não deve centrar-se tanto na vitória dos republicanos, mas sim na derrota dos democratas. Não querendo desmerecer a conquista dos republicanos, que, mesmo com Donald J. Trump enfrentando diversos processos judiciais, conseguiram manter a sua base firme e inabalável, a atuação dos democratas foi, sem dúvida, uma das mais desastrosas dos últimos tempos. 

O erro começou logo quando os democratas anunciaram, em abril de 2023, que Biden se recandidataria. Considerando a falta de entusiasmo em torno da sua presidência, a sua idade avançada e as preocupações sobre sua capacidade de liderar, esta não foi, de longe, a melhor opção. Especialmente quando havia outras alternativas, como Gretchen Whitmer ou Gavin Newsom, que poderiam ter dado um novo fôlego à campanha, com um apelo mais forte junto dos eleitores. 

Além disso, a decisão tardia de tornar Kamala Devi Harris a principal figura da campanha revelou-se desastrosa. Faltavam apenas três meses até às eleições, o que impossibilitou qualquer possibilidade de consolidar uma mensagem clara e eficaz. Este período escasso deixou Harris numa posição delicada, aumentando as dúvidas sobre a sua capacidade de mobilizar eleitores em estados essenciais. A falta de tempo também impediu que ela conseguisse elaborar um plano concreto e persuasivo para os eleitores. 

A campanha de Kamala, por si só, também não foi convincente. Embora ela tenha sido uma figura histórica a primeira mulher, afro-americana e asiático-americana a ocupar a vice-presidência e simbolizasse uma representatividade essencial, não conseguiu explorar adequadamente essas características em estados cruciais como Michigan, Wisconsin e, de forma ainda mais surpreendente, Minnesota. Este último foi um verdadeiro choque, pois Minnesota não apoiava um candidato republicano desde 1972, uma tradição que foi quebrada de forma inesperada. Para além disso, a sua campanha esteve muito centrada no direito ao aborto, deixando outras questões fundamentais, como a economia e a segurança pública, em segundo plano. 

No fim, as falhas acumuladas resultaram numa derrota esmagadora para os democratas, que terminaram com 226 votos no colégio eleitoral, contra os 312 dos republicanos. Para além de perderem o voto popular, sofreram uma derrota histórica em Minnesota, que há mais de 50 anos não dava o seu apoio a um republicano. Também se verificou uma queda considerável no apoio entre jovens, trabalhadores sindicalizados e minorias raciais, que sempre foram pilares do partido, conforme mostram dados do Pew Research Center e do Cook Political Report. 


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